Numa biblioteca como a do Museu Arqueológico de São
Miguel de Odrinhas quase todos os livros são verdadeiros
tesouros! São-no alguns dos mais recentes porque, muitos
deles, são raros ou não existem mesmo noutras bibliotecas
portuguesas. São-no a generalidade porque, embora mais
banais individual-mente, em conjunto formam grupos temáticos
coerentes e bastante completos que permitem ao leitor
empreender uma abordagem útil e tanto quanto possível
exaustiva dos seus objectos de estudo. São-no por fim os
mais antigos, dado não só os seus inesperados conteúdos mas
também o seu intrínseco valor e raridade, havendo mesmo
casos únicos – manuscritos – e outros de que actualmente se
conhecem apenas poucos exemplares em todo o mundo.
Nesta exposição privilegiámos esta última categoria, não
explorando porém todos os assuntos passíveis de tratar com
base nos fundos antigos da Biblioteca mas apenas – e a
título de exemplo – dando mostra de alguns deles: os de
epigrafia e de antiquarismo, nas suas vertentes europeia,
nacional e regional – onde quase sempre surgem, em qualquer
destes três níveis, referências a inscrições romanas de
Colares ou de São Miguel de Odrinhas; os de viagem – onde
Sintra é uma constante; os de medicina – até inícios do
século XVIII tão próximos, em certos aspectos, daquilo que
hoje consideraríamos meras superstições, mas também tão
surpreendentemente inovadores (por exemplo) em termos de
nutricionismo; e uma “vária de curiosidades”, que vai desde
um caderno de Profecias com trovas de Bandarra a uma
enigmática obra falsamente atribuída ao Padre António
Vieira…
O especial destaque aqui assumido relativamente ao “fundo
antigo” prende-se com uma evidência tão importante quanto
esquecida nos nossos dias: a de que certas ideias que
julgamos inéditas e inovadoras, e muitas outras coisas que a
vários títulos nos são úteis mas que comummente não sabemos
onde ir buscar, afinal já se encontram pensadas e escritas
há largos séculos, encerrando-se os seus segredos entre as
páginas por desvendar destes velhos livros.
DESTAQUES:
O Syntagma de Thomaz Reinesius, onde surge a primeira
dissertação académica e chamada de atenção do meio erudito
internacional sobre a divindade lusitana Endovellicus.
O volume da colossal obra do sábio beneditino francês D.
Bernard de Montfaucon, que constitui a primeira grande
enciclopédia iconográfica de antiguidades gregas e romanas
(ainda hoje tão surpreendentemente útil de consultar…).
As Inscriptiones Sacrosanctae Vetvstatis, de 1534 –
trata-se do mais antigo livro exposto –, que noticia com
pormenor a primeira descoberta arqueológica feita em
Portugal, a qual teve lugar precisamente no litoral
sintrense, junto à foz do Rio de Colares, em Agosto de 1505.
O Rei D. Manuel, “o Venturoso”, e a sua Corte acorreram de
imediato ao local e interessaram-se superlativamente pelo
achado – belo exemplo de espontâneo interesse do grande
poder político pela História e pela Cultura que, no vazio de
hoje, é importante evocar e salientar. Os dados contidos
neste velho livro contribuíram em muito para que a equipa do
Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas lograsse
redescobrir, há dois anos, o locus sacer consagrado, no
século II d.C., ao Sol, à Lua e ao Oceano. O que
proporcionou já novos achamentos espectaculares, como o
altar dedicado Soli et Oceano por um notável no exercício do
cargo de Procurador da Província da Lusitânia na época do
Imperador-Filósofo Marco Aurélio.
A primeira edição das De Antiquitatibus Lusitaniae de
André de Resende, “pai” da Arqueologia Portuguesa e um dos
mais notáveis humanistas lusos da áurea época de Quinhentos.
O livro de viagens a Portugal do arquitecto James Murphy,
que entre muitos outros motivos de interesse revela o
crescente interesse da sua época pelo Orientalismo e as
Culturas Exóticas ao reproduzir numa grande estampa
desdobrável, com notável rigor, a maior das duas
inscrições sânscritas que no século XVI foram trazidas pelo
Vice-Rei da Índia D. João de Castro para a sua Quinta da
Penha Verde, na Serra de Sintra.
A cópia manuscrita – uma das três ou quatro conhecidas –
da obra inédita de António Coelho Gasco sobre as
Antiguidades da Mui Nobre Cidade de Lisboa, no âmbito da
qual também se recolhem “antiqualhas” da região de Sintra;
algumas, aliás, aqui pela primeira vez dadas a conhecer,
como por exemplo certas inscrições romanas de Odrinhas ou de
Colares.
O Socorro Delphico de Francisco da Fonseca Henriques que,
apesar de constituir sem qualquer dúvida uma obra científica
e perfeitamente actualizada em função dos conhecimentos
médicos da sua época, apresenta no livro acerca dos «Males
da Infância» – de forma surpreendente no âmbito das nossas
actuais concepções – um longo capítulo (sete páginas a duas
colunas cada) intitulado «Da Fascinaçam, quebranto, ou mal
do olho»…
O Aquilegio Medicinal, deste mesmo autor – médico de D.
João V –, obra que pela primeira vez referencia
metodicamente e descreve as propriedades salutíferas das
principais águas minero- -medicinais
existentes em Portugal; e, entre elas, algumas de Sintra,
como as da Fonte da Sabuga. Hoje em dia não subsistem muitos
exemplares deste precioso livro.
A Âncora Medicinal para Conservar a Vida com Saúde,
também de Francisco da Fonseca Henriques, livro extremamente
inovador para o seu tempo pois aborda a prática médica sob o
ponto de vista profilático e nutricionista.
O tão singular livro do místico Frei Isidoro de Barreyra,
Tratado das significaçoens das plantas, flores e fruttos,
que trata das propriedades simbólicas e curativas do reino
vegetal.
O tão curioso códice manuscrito cheio de apontamentos,
diagnósticos e receitas de alveitaria, de medicina e de
fórmulas farmacopaicas, escrito por um anónimo ao longo de
toda uma vida de prático nestas artes – e cuja capa mole e
antigas dobraduras das folhas revelam ter sido certamente
levado muitas vezes nos largos bolsos deste desconhecido
que, há mais de dois séculos, percorreria campos e vales
para curar animais, pessoas e compor mezinhas e remédios.
O caderno manuscrito que reúne trovas de Bandarra, o
célebre sapateiro de Trancoso contemporâneo de D. Manuel e
de D. João III, e outros vaticínios quer sobre o Reino de
Portugal quer sobre os grandes Impérios do Mundo. Como
muitos destes folhetos populares de cariz profético – hoje
em dia cada vez mais raros de encontrar mas que correram
abundantemente na sua época –, foi escrito durante ou na
imediata sequência das Invasões Francesas, em época de
grande e generalizada crise de valores identitários,
políticos, religiosos e sociais.
A raríssima primeira edição do Thesouro de Prudentes,
composto em inícios do século XVII pelo Mestre de Artes
Gaspar Cardozo de Sequeira, obra surpreendente que reúne e
sincretiza conhecimentos matemáticos, religiosos,
astronómicos, astrológicos e práticos – e que tão estranha e
parece ao leitor da nossa época…
A raríssima primeira edição das Leis Extravagantes,
coligidas pelo jurista e historiador Duarte Nunes de Leão
por ordem de D. Sebastião, no início do seu reinado.
A primeira edição da Arte de Furtar, obra única no seu
género no âmbito da Literatura Portuguesa, que é
expressamente atribuída – mas de forma falsa! – ao Padre
António Vieira. E, apesar de constar no seu frontispício a
data de 1652, a verdade é que este livro foi publicado
apenas quase um século mais tarde…
A primeira edição, póstuma, da História do Futuro, obra
de fundo esotérico e sebastianista cujo autor – desta feita
com toda a certeza – é o Padre António Vieira.
CATÁLOGO:
D. Bernard de Montfaucon (1655-1741), L'Antiquité
Expliquée et Représentée en Figures, vol. V.1, Paris, 1719
[1.ª edição].
Thomaz Reinesius (1587-1667), Syntagma
Inscriptionum Antiquarum, Leipsig e Frankfurt, 1682 [1.ª
edição]. Aberto no início da dissertação sobre o deus
lusitano Endovellicus.
Raphaele Frabretti (1618-1700), Inscriptionum Antiquarum,
Roma, 1699 [1.ª edição].
Petrus Apianus (1495-1552) e Barptholomeus Amantius
(?-?), Inscriptiones Sacrosanctae Vetvstatis, Ingolstadt,
1534 [1.ª edição]. Aberto na página onde se dá notícia da
descoberta, em 1505, do templo consagrado ao Sol e à Lua
situado sobranceiro à foz do Rio de Colares. É esta a
primeira alusão que se conhece a um achado arqueológico
feito em Portugal.
Andreas Resendius (c. 1500-1573), De Antiquitatibus
Lusitaniae, Ebora, 1593 [1.ª edição]. Aberto no texto
referente às inscrições descobertas no templo consagrado ao
Sol e à Lua.
Antiguidades da Luzitania e outras obras históricas de
André de Rezende, Setúbal, 1872. Trata-se da primeira
tradução portuguesa (anónima) das De Antiquitatibus
Lusitaniae de Resende [manuscrito original]. Aberto no texto
referente às inscrições descobertas no templo consagrado ao
Sol e à Lua.
Frey Bernardo de Brito (1569-1617), Monarchia Lusytana,
vol. I, 1690, Lisboa [2.ª edição]. Aberto no texto referente
às inscrições descobertas no templo consagrado ao Sol e à
Lua.
Luis Marinho de Azevedo (?-1652), Primeira Parte da
Fundação, Antiguidades e Grandezas da Mui Insigne Cidade de
Lisboa, Lisboa, 1652 [1.ª edição]. Aberto em páginas
alusivas a inscrições romanas de São Miguel de Odrinhas.
D. Rodrigo da Cunha (1577-1643), Historia Ecclesiastica
da Igreja de Lisboa, vol. I, Lisboa, 1642 [1.ª edição].
Aberto em páginas alusivas a inscrições romanas de São
Miguel de Odrinhas.
Códice manuscrito. Antonio Coelho Gasco (?-1666),
Antiguidades da Mui Nobre Cidade de Lisboa. Esta obra de
Coelho Gasco nunca chegou a ser publicada na sua época,
embora tenha corrido nos séculos XVII e XVIII através de
algumas cópias manuscritas – como aquela que pertence à
Biblioteca do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas
–, das quais se conhecem hoje apenas alguns contados
exemplares. Aberto em páginas alusivas a inscrições de
Odrinhas e de Colares.
William Bradford (c. 1780-1857), Sketches of the country,
character, and costume, in Portugal and Spain, London, 1812
[1.ª edição]. Aberto numa gravura que representa a Vila e a
Serra de Sintra.
William Morgan Kinsey (1788-1851), Portugal Illustrated,
London, 1829 [2.ª edição]. Aberto numa gravura que
representa o Convento dos Capuchos, na Serra de Sintra.
James Murphy (1760-1814), Travels in Portugal, 1795, London
[1.ª edição]. Aberto no desdobrável que reproduz a grande
inscrição sânscrita da Quinta da Penha Verde, no século XVI
recolhida num templo indiano por D. João de Castro.
Duarte Madeira Arraiz (c.1600-1652, físico-mor de D. João
IV), Methodo de Conhecer e Curar o Morbo Gallico, Lisboa,
1683 [1.ª edição].
João Curvo Semedo (1635-1719, Médico da Casa Real),
Atalaia da Vida contra as Hostilidades da Morte, Lisboa,
1720 [1.ª edição].
Francisco da Fonseca Henriques (1665-1731, médico de D.
João V), Medicina Lusitana, Soccorro Delphico aos Clamores
da Natureza Humana, Amsterdam, 1731 [2.ª edição].
Francisco da Fonseca Henriques (1665-1731, médico de D.
João V), Ancora medicinal para Conservar a Vida com Saude,
Lisboa, 1731 [2.ª edição].
Francisco da Fonseca Henriques (1665-1731, médico de D.
João V), Aquilegio Medicinal, em que se dá noticia das agoas
de caldas, de fontes, rios, poços, lagoas, e cisternas, do
Reyno de Portugal, e dos Algarves, Lisboa, 1726 [1.ª
edição]. Aberto na página que refere a Fonte da Sabuga, em
Sintra.
Fernão Solis da Fonseca (séc. XVI, Lente de medicina na
Universidade de Coimbra entre 1584 e 1585), Regimento para
Conservar a Saude e Vida, Lisboa, 1626 [1.ª edição].
Antonio Gomes Lourenço (1709-1800, Cirurgião dos feridos
no Hospital Real de Todos os Santos), Arte Phlebotomanica
Anatomica, Medica, e Cirurgica, para os Sangradores, e mais
Professores, Lisboa, 1741 [1.ª edição].
Frey Isidoro de Barreyra (?-1634), Tratado das
significaçoens das plantas, flores e fruttos, Lisboa, 1698
[2.ª edição].
Códice manuscrito, segunda metade do século XVIII.
Trata-se de uma cópia, para uso pessoal, da clássica obra de
António Ferreira da Cruz [«Cerugiam del Rey Nosso Senhor e
do seu hospital Real de todos os Santos» (séc. XVII)],
Recopilaçam de Cirurgia. Na primeira folha vêm os nomes de
alguns dos seus antigos possuidores: «Francisco da Costa
Martins»; «Manoel Netto Carneiro»; «Este livro he do P(adr)e
Manoel Al(vare)z Per(eir)a da freg(uesi)a de S(an)thiago da
Carvalhoza de Ferr(eir)a termo do Porto».
Códice manuscrito, c. de 1760. Miscelânea prática de
alveitaria, receituário farmacológico e medicina.
Caderno manuscrito de inícios do século XIX. Miscelânea
de profecias, iniciada pela célebre Colleção de Profecias
mais notáveis: respeito á felicidade de Portugal e cahida
dos maiores Imperios do Mundo, de António Gonçalves de
Bandarra (1500-1556).
Códice manuscrito. Miscelânea anónima, essencialmente de
cariz jurídico mas também poético, expressamente datado na
folha 104 v. do ano de 1741 («in anno milessimo,
septingessimo, et quadragessimo 1.º»).
Andreas Alciatus (1492-1550), Emblemata, Antuerpia, 1622.
O mais célebre tratado de iconologia do século XVI, cuja
primeira edição remonta a 1531.
Gaspar Cardozo de Sequeira (c. 1580 - c. 1680), Mestre em
Artes pela Universidade de Alcalá, professor de matemáticas
em Lisboa, Coimbra e outras cidades de Portugal e Espanha),
Thesouro de Prudentes, Coimbra, 1612 [1.ª edição].
Frey Ioan Baptista o Feo (?-?), Calendairo Romano
Perpetuo, Lisboa, 1588 [1.ª edição].
Duarte Nunes de Leão (c. 1530-1608), Leis Extrauagantes
Collegidas e Relatadas pelo Licenciado Duarte Nunez do Liam
per Mandado do Muito Alto & Muito Poderoso Rei Dom Sebastiam
Nosso Senhor, Lisboa, 1569 [1.ª edição].
Frey Bernardo de Brito (1569-1617), Elogios dos Reis de
Portugal, Lisboa, 1603 [1.ª edição].
[Padre Manuel da Costa (1601-1667)], Arte de Furtar,
Espelho de Enganos, Theatro de Verdades, Mostrador de Horas
Minguadas, Gazua Geral Dos Reynos de Portugal. Offerecida a
Elrey Nosso Senhor D. João IV (…). Composta pelo Padre
Antonio Vieyra (…). Amsterdam, na Officina Elvizeriana, 1652
[na verdade, Lisboa, 1743 ou 1744, 1.ª edição]. A autoria, o
local, o ano e o impressor indicados são falsos; a obra,
composta em 1652, manteve-se inédita durante quase um
século; foi impressa apenas em 1743 ou 1744, em Lisboa, por
J. Baptista Lerzo.
Padre Antonio Vieyra, Historia do Futuro., Lisboa, 1718
[1.ª edição].