O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas assenta aos seus mais profundos alicerces no Renascentismo, quando alguém - muito provavelmente Francisco d´Ollanda - decidiu reunir em torno da antiga Ermida de São Miguel um apreciável conjunto de monumentos epigráficos encontrados por entre as ruínas romanas ainda então visíveis no local.
Mais recentemente, em 1995, a Câmara Municipal de Sintra tentou uma experiência inovadora para o seu tempo: a construção, em plena zona rural, de um pequeno núcleo museológico que permitisse voltar a reunir, em Odrinhas, as antiguidades entretanto dispersas, além de outras mais recentemente detectadas.
O actual Museu Arqueológico
de São Miguel de Odrinhas herdou, do seu mais
remoto antecessor, o espírito humanista e cosmopolita que
foi apanágio do Renascimento. Do mais recente, colheu o vínculo privilegiado ao
maio que o rodeia e á população rural do Termo de Sintra, região onde, de algum
modo, se podem ainda hoje escutar os longínquos ecos do Passado.
Meta aparentemente impossível, essa de juntar e harmonizar coisas pretensamente contraditórias: as raízes "localistas" da instituição e a fertilidade e o vigor dos seus ramos que apontam decididamente para fora, mesmo para além fronteiras.
Mas a contradição é mais aparente que real. Sintra beneficiou sempre, ao longo dos milénios, de uma ocupação humana muito intensa e diversificada, de origens e tradições culturais díspares, que aqui foram deixando não só os múltiplos testemunhos materiais da sua passagem e vivência, mas também o essencial da sua própria personalidade, num processo dinâmico e cumulativo que pouco a pouco veio a construir a singular riqueza patrimonial da região.
Finis terrae do Mundo Antigo, zona privilegiada de intercâmbio entre o Norte Atlântico e o Sul Mediterrânico, beneficiando ainda da extrema proximidade ao Estuário do Tejo e à grande metrópole que desde cedo nele se implantou, rica de uma paisagem multifacetada - desde a Serra Sagrada, emergindo do Oceano, às colinas que de Lisboa ao Termo de Mafra enquadram uma rica série de plataformas cerealíferas entre si divididas por profundos vales fluviais, fecundos em hortas e culturas de regadio -, a Região de Sintra abunda em monumentos e vestígios arqueológicos de todas as épocas, que não se apresentam como um todo sequencial monótono e previsível, mas sim como um mosaico polícromo e fértil dos mais variados motivos que inesperadamente se cruzam e fundem, como se os passados da Europa e do Mediterrâneo aqui viessem convergir e sincretizar-se.
Sintra, pois, amostragem legítima e plurifacetada de
muitas arqueologias, de muitas histórias, de muitas tradições.
Eis como a própria realidade local é em si mesmo cosmopolita, facilitando-nos assim a tarefa de projectar a sua imagem para o exterior. As colecções conservadas no novo Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas constituem o corolário do que acabámos de afirmar.
As centenas de inscrições e monumentos lapidares romanos aqui reunidos, todos de origem regional, espelham no entanto, e par a par, influências estilísticas e populações de filiação itálica, norte africana, oriental, paleohispânica - entre outras menos frequentes. Os vigorosos lintéis de uma singular igreja visigótica - ou "visigotista" - latinizam nas inscrições que ostentam a matriz síria da sua expressão plástica. As largas dezenas de cabeceiras medievais justapões a cruz ao signo-saimão, as rodas concêntricas do Mundo aos dois triângulos invertidos da estrela de seis pontas. Até aos três únicos sarcófagos etruscos existentes em Portugal aqui vieram ter, fruto da eleição de Sintra como "paraíso perdido" do Romantismo, visto que de Itália passaram há mais de século e meio para os jardins de Monserrate, como simples ornatos de sabor antiquarista, e daí vieram recentemente para o novo Museu de Odrinhas, onde finalmente assumiram foros de peças arqueológicas de primeira grandeza no contexto museológico nacional.
O Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas constitui, a vários títulos, um "manifesto" em prol do Humanismo e da Tolerância. Acredita-se, aqui, que a riqueza cultural da Humanidade reside, essencialmente, na sua diversidade e que nenhuma cultura tem o direito de se sobrepor às restantes. Acredita-se, igualmente, na Tradição como fonte perene de renovação da identidade e não como coisa morta ou saudosista.