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Parques de Sintra Acusada de Atentados ao
Património Por LUÍS FILIPE
SEBASTIÃO Sábado, 10 de Agosto de 2002
Arqueólogos
contestam empresa pública
Sociedade criada pela autarquia e organismos
governamentais para a conservação do património leva a cabo
intervenções sem acompanhamento técnico
A empresa Parques de Sintra-Monte da Lua, responsável pela gestão
de parques históricos e monumentos na serra sintrense, é acusada
pelos arqueólogos do município de destruição sistemática de
património arqueológico. As acções levaram mesmo o Instituto
Português de Arqueologia (IPA) a alertar a empresa pública de que
"as infracções ao património cultural são passíveis de procedimento
judicial".
Os técnicos do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas,
dependente da autarquia, detectaram vários "atentados" perpetrados
pela empresa criada precisamente para recuperar uma parte da área
classificada Património Mundial pela UNESCO. Em Abril de 2001,
segundo a acta de uma reunião com técnicos da Parques de Sintra,
foram observadas várias intervenções com impactes negativos no
Castelo dos Mouros. A situação mais grave verificou-se no único pano
de muralha de construção "inequivocamente islâmica, datável do
século IX d. C", onde foi fixada com cimento uma caixa eléctrica.
Em Fevereiro deste ano, os arqueólogos da autarquia denunciaram
ao IPA e ao Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar)
danos provocados no sítio arqueológico de São Pedro de Canaferrim,
no Castelo dos Mouros. Nas operações de limpeza e desmatação
realizadas pela Parques de Sintra foram "destruídas algumas
estruturas, concretamente as fossas neolíticas datadas de há cerca
de 7000 anos", verificou Teresa Simões, do museu de Odrinhas.
O presidente da Parques de Sintra, Paulo Serra Lopes, negou, em
resposta ao IPA, que a zona de escavações arqueológicas tenha sido
"devassada" ou "destruída". Todavia, acrescentou que os
trabalhadores que asseguram a manutenção do castelo "tentaram
limpar" a rede que tapava os vestígios para "melhorar o aspecto de
abandono daquela zona". Mas o vice-presidente do Ippar, Paulo
Pereira, confirmou ao PÚBLICO que, "em alguns pontos, a limpeza foi
excessiva". Os técnicos do instituto concluíram que houve
"negligência incompreensível" por parte da empresa, que até tinha
sido alertada para acautelar as intervenções na zona.
Em finais de Maio, um técnico do IPA voltou ao castelo com uma
arqueóloga de Odrinhas. Em consequência da desmatação caíra uma
barreira de terra no acesso ao recinto muralhado, pondo a descoberto
uma estrutura de armazenamento medieval com a respectiva tampa em
pedra. No seu memorando, a arqueóloga Catarina Coelho, do museu
sintrense, explica que foram informados de que o responsável pela
manutenção do castelo procedera "ao desentulhamento do silo",
levantando a tampa e recolhendo "não só materiais arqueológicos
como, também, vários fragmentos de ossos, aparentemente humanos".
Além disso, decorriam "obras no subsolo junto à cisterna
medieval", onde afloravam "estruturas arqueológicas não
identificadas, nem registadas". O poço junto à torre real havia sido
limpo e a vegetação junto à muralha, próximo da "porta árabe", fora
removida - tudo sem acompanhamento arqueológico.
O director do IPA, Fernando Real, considerou que os trabalhos
desenvolvidos na zona especial de protecção do castelo, classificado
monumento nacional, eram "lesivos para o património arqueológico".
Em ofício dirigido à empresa em Junho aponta a necessidade de uma
intervenção arqueológica de emergência no silo da entrada do
castelo, antecedida de um estudo de estabilidade do talude, por
causa de "um grande bloco solto, de granito, que poderá apresentar
perigo de derrube". "Face aos antecedentes e à repetida actuação
lesiva para o património arqueológico", este responsável deixa uma
ameaça: "As infracções ao património cultural são passíveis de
procedimento judicial".
A Parques de Sintra informou o IPA de que as intervenções nas
cisternas foram realizadas entre Fevereiro e Abril de 2001 e que os
trabalhos, numa das estruturas, eram do conhecimento do museu de
Odrinhas. Em relação à cisterna no topo das muralhas, alegou que a
sua limpeza foi anterior à criação da empresa, e que, "para colmatar
as deficiências de apoio técnico", solicitou já a colaboração de uma
arqueóloga do referido museu. O Laboratório Nacional de Engenharia
Civil foi chamado a inspeccionar o talude, e Serra Lopes conclui que
os termos do ofício onde se alude ao procedimento judicial "são
claramente excessivos".
"Encobrimento Deliberado" de
Descobertas Sábado, 10 de
Agosto de 2002
O director do museu de Odrinhas, José Cardim Ribeiro, explica,
numa informação de serviço, que os técnicos municipais souberam da
limpeza da cisterna por telefone e que se recusaram a comparecer sem
autorização prévia do IPA e Ippar. Após o aparecimento de vestígios
arqueológicos, a empresa pretendia "salvaguardar-se por detrás da
presença dos arqueólogos", acusa. Noutra informação, Cardim Ribeiro
considera serem "inequívocos os atentados ao património
arqueológico" por parte da Monte da Lua. E dá como exemplos a
dispersão de abundantes materiais cerâmicos do século XVIII, do
antigo poço da alcáçova do castelo, ou o achado de machados de pedra
polida na área dos Capuchos. Estas descobertas, afirma, "foram
deliberadamente encobertas pela Parques de Sintra perante as
entidades competentes, nomeadamente a câmara e os seus serviços de
arqueologia".
O arqueólogo observa que, "paradoxalmente, todas estas
destruições" foram "de ânimo leve praticadas não por particulares,
não por caçadores de tesouros nem empresas construtoras", mas, "em
exclusivo e de forma repetida, pela entidade propositadamente criada
para gerir e conservar o património sintrense".
O investigador, que coordenou a candidatura de Sintra a
Património Mundial, teme que a empresa prossiga, "a seu bel-prazer e
impunemente", a destruição do património que devia proteger e
conservar. E, em conclusão, questiona: "Quem assumirá as
responsabilidades perante a comunidade nacional e internacional, e
perante as gerações vindouras, pelas irreversíveis destruições
perpetradas em Sintra em nome - pasme-se - do próprio Património
Mundial?".
L.F.S.
Seara Quer Antecipar Nova Missão de
Peritos Sábado, 10 de Agosto de 2002
Câmara de Sintra vai
assumir maioria do capital da Parques de Sintra-Monte da
Lua
A Câmara de Sintra prepara-se para assumir os 55 por cento do
capital social da Parques de Sintra-Monte da Lua, até agora detidos
pelo Instituto de Conservação da Natureza (ICN). O presidente da
autarquia, o social-democrata Fernando Seara, vai também solicitar à
UNESCO que antecipe o regresso de peritos à zona classificada como
Património Mundial.
Segundo Seara, os ministérios das Cidades e Ambiente, da
Agricultura e da Cultura - os restantes fundadores da Parques de
Sintra - já manifestaram o seu acordo para que o município "troque a
posição accionista" com o ICN, que deverá ficar com os 15 por cento
até agora detidos pelos outros três parceiros. "A empresa estava
tecnicamente falida ao fim de um ano de vida e entendemos que a
preservação do património implica a participação efectiva da
câmara", explica.
O autarca adianta que vai solicitar à UNESCO que envie uma nova
missão de peritos para fiscalizar as intervenções realizadas e "para
ajudar a elaborar o plano de gestão" para a zona. Esta foi, aliás,
uma das recomendações efectuadas pelos peritos que em 2000 avaliaram
a situação da área classificada.
Seara deverá ainda propor ao executivo a criação de um "conselho
académico", outra das recomendações da missão da UNESCO, integrando
personalidades do meio cultural e científico, que a par do conselho
consultivo da Parques de Sintra, deverá aconselhar sobre a melhor
forma de reabilitar o centro histórico e a serra.
Seara escusou-se a comentar as acusações do museu de Odrinhas à
Monte da Lua, apesar de, nas reuniões do executivo em que a questão
foi analisada, ter apoiado as propostas para que fosse manifestado
no conselho de administração um "veemente protesto" pela destruição
do património. As propostas não chegaram a merecer o consenso dos
vereadores, pois o vereador socialista Rui Pereira contestou que o
executivo aprovasse um protesto contra uma entidade da qual faz
parte.
"O que é que a câmara está a fazer no conselho de administração
da empresa? Se desconhece o que lá se passa, então é porque a
empresa tem andado em roda livre", declarou ao PÚBLICO. O autarca
considera "gravoso para a câmara" o aumento da participação no
capital social da empresa, se não forem assegurados os meios de
financiamento, porque senão os investimentos "terão que ser
suportados pelos munícipes de Sintra".
L.F.S.
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