Obras no
Palácio de Sintra Revelam Forno Medieval
Por LUÍS FILIPE
SEBASTIÃO
Um forno de cerâmica medieval foi descoberto no largo do Palácio Nacional de Sintra, durante as obras de remodelação das infra-estruturas do monumento, mas o achado arqueológico deverá voltar a ser enterrado.
Obras
no Palácio de Sintra Revelam Forno Medieval
Por LUÍS FILIPE
SEBASTIÃO
Quinta-feira,
22 de Maio de 2003
Um forno de cerâmica medieval foi descoberto no largo do Palácio Nacional de Sintra, durante as obras de remodelação das infra-estruturas do monumento, mas o achado arqueológico deverá voltar a ser enterrado.
Desde a semana passada que o terreiro em frente ao antigo Paço Real se encontra transformado em estaleiro de obras destinadas à renovação das redes de saneamento básico. Os trabalhos, segundo explica a directora do palácio, Inês Ferro, fazem parte de um conjunto de projectos de reabilitação e valorização do monumento, levados a cabo pelo Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar) com verbas do III Quadro Comunitário de Apoio.
Na quinta-feira passada, na sequência da abertura de uma vala ao longo da rampa de acesso às traseiras do palácio, onde está instalado o destacamento da GNR, foi encontrado junto à escadaria principal um antigo forno de cerâmica, que se presume ser do século XIV ou princípios do século XV. "Pela tipologia tudo indica que seja um forno aberto" semelhante a outro encontrado na região de Palmela, adiantou fonte do Ippar. A estrutura escavada até ao afloramento rochoso atinge uma profundidade de cerca de 1,40 metros e terá servido para o fabrico de elementos cerâmicos destinados a obras de construção do palácio, ao que se presume antes da campanha de ampliação promovida por D. Manuel I.
Além da construção de uma nova ala nascente, a intervenção manuelina do palácio é responsável pela maioria dos revestimentos em azulejo que lhe conferem características únicas na arte mudéjar. Embora estejam documentadas as encomendas a oficinas espanholas, nomeadamente de Sevilha, alguns investigadores acreditam que alguns azulejos também possam ter sido fabricados localmente, dada a enorme quantidade necessária aos vários espaços do monumento.
O forno agora achado, apesar de não se destinar ao fabrico de azulejos, mas por exemplo a tijolos, abre a possibilidade da existência de outras estruturas de produção local destinadas às várias campanhas de ampliação do palácio - cuja primitiva alcáçova mourisca deve ainda a sua transformação a D. Dinis e a D. João I, este último responsável pelas geminadas e colossais chaminés cónicas. As obras em curso no palácio puseram ainda a descoberto frescos murais no pátio central, em redor da gruta dos banhos, com motivos geométricos, que se presumem da época manuelina (século XVI). E, numa dependência associada à antiga casa da cal foram detectados inéditos trechos de pavimento com azulejos hispano-árabes em espinha.
"É uma estrutura muito frágil, do tipo de fornos que aparecem de quando em vez, mas que são muito importantes para documentar as fases de construção dos monumentos", afirma o presidente em exercício do Ippar, Paulo Pereira. "Não pode e não se aconselha" que o forno fique a descoberto, acrescenta. A sua preservação passa - após as escavações, rigoroso registo e consolidação -, por voltar a ser tapado por um revestimento geotêxtil e coberto com areia, para que possa ser estudado ou musealizado no futuro. O reenterramento acontecerá entre "amanhã [hoje] à tarde e sexta-feira".
Paulo Pereira nota que o achado resultou de um exemplo que deve ser seguido "mesmo nas áreas que não têm potencial arqueológico": a equipa de arqueólogos que acompanha as obras em curso no palácio acabou por encontrar o forno num espaço - o terreiro - que se julgava mais do que remexido, e portanto pouco interessante do ponto de vista dos achados. Os arqueólogos vão continuar a acompanhar as obras de saneamento ao longo das próximas semanas.