
Amor aos mosaicos
pode criar
empregos
em Sintra
Um fragmento de mosaico vindo da região
síria de Balkis, com a representação mitológica de
Eros (na foto), está a ser restaurado numa escola-oficina
da zona de Sintra. Mais exactamente no Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas, onde há três anos nasceu um primeiro curso de
formação profissional de restauro deste género de arte decorativa. O próximo
curso arranca amanhã, sinal de bons resultados de uma aprendizagem que pode
tornar-se numa forma de ganhar a vida. Alguns ex-alunos, ajudados pelo Centro
de Emprego de Sintra, até já formaram uma empresa
Museu forma especialistas
em
restauro de "imagens de pedra"
, ESCOLA-OFICINA EM ODRINHAS
Terceiro
curso de recuperação e valorização do património arranca amanhã no concelho de
Sintra
LUÍS FILIPE SEBASTIÃO
"Cave canem",
aviso em latim significando "cuidado com o cão", era uma das
mensagens que os romanos mandavam inscrever em painéis de mosaico para colocar
à entrada de casa.
O desenho de um painel originário de Pompeia, datado
do século II e conservado no museu arqueológico de Nápoles, mostrando um cão
de aspecto feroz, serviu aos alunos de um curso deformação profissional para
realizar uma de várias réplicas musivas do período
romano. O Curso de Restauro e Valorização do Património Arqueológico:
Recuperação de Mosaicos Romanos decorre desde o ano lectivo 2000/2001 no Museu
Arqueológico de São.
Miguel de Odrinhas (MASMO),
no âmbito do programa escolas-oficina financiado
pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.
O terceiro curso arranca oficialmente amanhã. Os trabalhos
dos alunos do primeiro ano deram origem a uma exposição "O Chão das Musas
- Réplicas de mosaicos romanos". Primeiro
mostrada no museu sintrense, encontra-se agora parcialmente exposta, até 31 de
Agosto, no Museu Municipal de Santiago do Cacém.
"É uma exposição de 'rascunhos'.
Os formandos já não fazem nada disto, mas para chegar aos trabalhos actuais
tiveram que passar por essa fase", explica Carlos Beloto,
coordenador do curso. Os primeiros trabalhos, com figurações bicromáticas, resultam
da aprendizagem da técnica clássica da construção dos pavimentos musivos com tesselas (cubos)
fabricadas em materiais sintéticos.
A utilização
inicial do preto e branco proporciona aos alunos "uma maior consciência
da boa construção do mosaico" e corresponde, de certa forma, às origens da
arte musiva.
A técnica do mosaico polícromo,
que permitiu composições mais elaboradas, desenvolveu-se a partir de meados do
século II até aos finais da Romanidade. O responsável pela escola-oficina
adianta com ironia que as pequenas tesselas
"entram em bidão e saem em mosaico". Isto porque os pequenos cubos
são fabricados em resina a partir de pequenos moldes em silicone (também
criados pelos alunos) das peças originais em calcário. A formação inclui a
aprendizagem de regras químicas para o manuseamento dos produtos usados no
fabrico de milhares de tesselas, das mais variadas
cores.
O motivo do mosaico é desenhado invertido na tela que
lhe serve de base e o "puzzle" é preenchido com as tesselas coladas pelo tardoz. O
pano é removido e o painel submetido ao tratamento que lhe emprestará a
indispensável "patine" dos tempos por que não passou. O domínio desta
técnica permite a construção de réplicas e a recuperação de mosaicos originais.
Restaurar o
passado, preservando o futuro
Um fragmento de mosaico vindo da região síria de Balkis, com a representação mitológica de Eras, foi um dos
trabalhos confiados pelo Museu Nacional de Arqueologia para restauro na escola-oficina do MASMO.
"Todas as intervenções de restauro no mosaico original são feitas com tesselas artificiais. Assim não se notam diferenças em
relação às tesselas originais e não colide com as
normas deontológicas do restauro do património", salienta Carlos Beloto. Este procedimento possibilita que, após o restauro
ou reconstrução dos fragmentos musivos, os
investigadores possam continuar a estudar o mosaico original (as tesselas sintéticas são facilmente detectadas por processos
técnicos) e "vai ao encontro do público, porque não fica condicionado a
ver os mosaicos mutilados".
No segundo ano do curso, que terminou no início de
2003, os jovens da escola-oficina de Odrinhas realizaram já intervenções em fragmentos musivos clássicos originais, entre os quais o do minotauro da "villa" de
Torre de Palma. Mas também foram desafiados a desenvolver o chamado
"mosaico de autor" , a partir de uma obra de
Almada Negreiros. A reprodução das tesselas
sintéticas forneceu ainda a técnica para o fabrico de réplicas de peças
arqueológicas, como lucernas, ídolos ou pequenos
utensílios em silex.
Carlos Beloto foi técnico do
Museu de Conímbriga e especializou-se no restauro de
mosaicos, vidro e metais através do contacto com investigadores na Alemanha, França
e Inglaterra. No seu currículo consta nomeadamente a reprodução de peças de
escultura ou de ourivesaria expostas na Europália
(Bruxelas) e no pavilhão português da Expo-92 (Sevilha). O técnico ambiciona prolongar por dois
anos o terceiro curso de restauro, que
amanhã tem início. Um só ano não chega para formar técnicos nesta área e, após
uma primeira fase idêntica à que deu origem à exposição "O Chão das
Musas", pretende-se que a formação seja alargada à "recuperação de
estruturas arqueológicas".
A necessidade de especialistas nesta área é
reconhecida por José Cardim Ribeiro, director do MASMQ, ao adiantar que, quando a Câmara de Sintra adquirir os terrenos da
"villa" romana de Santo André de Almoçageme, será preciso "recuperar os mosaicos, as
estruturas e o forno que nunca foi escavado" naquela estação arqueológica.
Empresa nasce de curso de formação profissional
Opera Musiva vocacionada para o restauro do património
arqueológico
"Quis experimentar uma coisa nova", conta
Mercedes Casinhas sobre o motivo que a levou a candidatar-se ao curso de
formação profissional em restauro de mosaicos após ter decido largar a escola.
A jovem integrou o grupo de sete elementos, com idades
agora compreendidas entre os 22 e os 40 anos, com trabalhos na exposição
"O Chão das Musas", que reúne mosaicos realizados a partir de
painéis ou fragmentos musivos representando anúncios,
cenas rituais ou divindades preservados em museus de Lisboa, Romã e Nápoles ou
em Ostia Antica (Itália).
Os formandos que terminaram o segundo curso fundaram,
entretanto, a Opera Musiva, empresa que adopta a
expressão em latim de "Obras em Mosaico". A criação da empresa, além
de proporcionar emprego aos formandos, traduz o sucesso de um curso que,
conforme nota o director do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (MASMO), José Cardim
Ribeiro, "só é possível graças ao apoio exemplar dos responsáveis do
Centro de Emprego de Sintra".
Para Cardim Ribeiro, a escola-oficina assume "uma vertente de integração
social do museu" na comunidade e de formação técnica na recuperação do
património arqueológico. Uma acção que complementa as restantes áreas
ministradas na Escola Profissional de Recuperação do Património de Sintra,
também criada pela autarquia sintrense e que, em breve, se mudará para as novas
instalações construídas junto ao MASMO.
Trabalho, aliás, não parece faltar aos jovens
empresários, designadamente na recuperação dos mosaicos de Santo André de Almoçageme, São Miguel de Odrinhas
e, eventualmente, dos pavimentos que venham a ser descobertos junto à futura
Casa das Selecções, em Almargem do Bispo, onde foram
encontradas inúmeras tesselas avulsas. Mas a empresa,
que poderá ainda vir a absorver os novos especialistas em preservação de estruturas
arqueológicas, terá a seu cargo a.
reprodução de peças de várias épocas para venda na
loja do MASMO.
O Museu Nacional de Arqueologia encomendou cerca de
três dezenas de réplicas de objectos, desde a pré-história até à Idade Média,
e em carteira está igualmente a reprodução de alguns emblemas dos mosaicos de Conímbriga. Uma instituição da Galiza mostrou-se
interessada no fabrico de um painel em mosaico para servir de tampo a uma mesa
informativa de um castro daquela região espanhola.
in
Publico 2003/05/04