Sintra Cria Primeira "Reserva Arqueológica" em São Marcos
Por LUÍS FILIPE SEBASTIÃO
Segunda-feira, 21 de Outubro de 2002

Vestígios selados para o futuro

Complexo lúdico requalifica espaço com vestígios de ocupação humana entre os séculos III a.C. e VII d.C.

A Câmara de Sintra vai criar uma primeira "reserva arqueológica" em São Marcos. Numa zona de antigas searas conquistadas pelo betão, os vestígios das anteriores escavações, que puseram à mostra restos de estruturas que remontam ao período romano, vão ser selados até que existam meios para que voltem a ser investigados. Enquanto isso, os moradores ganham um complexo lúdico e desportivo.

Os campos de São Marcos foram, nos últimos anos, progressivamente ocupados por prédios, com nove e mais pisos, encavalitados uns nos outros e na encosta virada para o IC19, o principal itinerário que liga Lisboa a Sintra. No meio de tanto betão, os urbanizadores tiveram de ceder ao município, em 1984, uma área de 2,6 hectares, em redor da estação arqueológica do Casal de São Marcos.

A estação, descoberta em 1978, foi alvo de uma intervenção pouco mais do que superficial, mediante a abertura mecânica de um conjunto de valas que permitiram estabelecer os seus limites. Aqui e ali foram surgindo algumas estruturas: um muro, um compartimento, uma e outra parede a formar uma esquina.

Nas sondagens então efectuadas foram recolhidos, segundo Catarina Coelho, do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (MASMO), principalmente "materiais superficiais, compostos por cerâmica comum romana". Todavia, a arqueóloga salienta que, tanto nas intervenções anteriores como nos trabalhos retomados no mês passado, "apenas se fez uma limpeza e não uma escavação em profundidade". Mesmo assim, depois de retirado o mato e outros materiais que cobria os vestígios - enquanto os prédios iam tomando conta da paisagem, as betoneiras despejavam os restos de massa que transportavam nos terrenos da estação -, nas últimas semanas foram postas a descoberto várias lajes de um antigo pavimento.

São de um espaço exterior ou interior? Isso não se sabe e, apesar de espicaçada a curiosidade dos técnicos, a resposta não será obtida tão cedo. É que as pedras terão ficado à vista em consequência de uma "lavagem" natural das terras. E os actuais trabalhos destinam-se apenas a limpar de novo as estruturas.

Após um levantamento topográfico, os vestígios serão cobertos com uma rede, sobre a qual se depositará uma camada de areia, com a finalidade de proteger e assinalar o nível das escavações. Por fim, uma camada de terra "selará" a estação, que ficará preservada sob um prado de sequeiro, da área de desporto informal do futuro complexo lúdico de São Marcos (ver caixa).

De acordo com José Cardim Ribeiro, director do MASMO, muitos dos vestígios encontrados em São Marcos pertencem "nitidamente à época romana", mas "é impossível dizer a que período concreto". Os testemunhos encontrados apontam para uma ocupação do lugar entre os séculos III a.C. e VII d.C. - ou seja, pode tratar-se de um "'habitat' proto-histórico transformado em 'villa' romana nos inícios do Império".

Prédios "crescem" como milho

Seja como for, as terras da zona são particularmente férteis - terrenos de basaltos propícios à agricultura e onde, agora, os prédios também parecem "crescer" como milho. A proximidade de ribeiras, que antes comunicariam mais facilmente com o Tejo, também ajudava à ocupação de São Marcos.

Apesar da importância do sítio, José Cardim Ribeiro nota que "o concelho de Sintra possui quase 200 estações arqueológicas identificadas". Ora, salienta, "é absolutamente impossível escavar, investigar e musealizar todas essas estações". Por isso, o MASMO decidiu criar a "reserva arqueológica": um sítio onde se estabelece "uma interdição efectiva de construção no terreno, mas se procede à selagem dos vestígios".

No fundo, a medida visa preservar para o futuro as estações arqueológicas cujas estruturas postas a descoberto se têm mantido mais ou menos superficiais, com riscos inerentes de degradação. Cardim Ribeiro admite que este tipo de iniciativa não era possível há anos atrás - "se os arqueólogos tapassem os vestígios havia a impressão de que não interessavam" -, mas que, aproveitando uma maior sensibilidade para as questões do património, será possível estudar as estações no futuro - pela autarquia ou por uma universidade - quando existirem meios e novas técnicas.

"Temos obrigação de legar aos vindouros o nosso passado", sustenta o responsável do MASMO, acrescentando que a criação de uma "reserva arqueológica" pressupõe a existência de informação para a população sobre o que lá está soterrado e a sua inclusão numa futura carta do património histórico-cultural, que permita proteger esses vestígios da mesma forma que o património classificado. "Esta é uma primeira experiência para serem criadas várias reservas arqueológicas no concelho", admite Cardim Ribeiro, adiantando que a medida poderá ser repetida em Colaride, Granja dos Serrões e Catribana.

 

Percurso de Manutenção Entre o Betão
Segunda-feira, 21 de Outubro de 2002

O complexo lúdico de São Marcos visa a requalificação da estação arqueológica e será uma área vedada, incluindo um edifício com funções polivalentes, um campo de ténis e futebol de sete. O projecto prevê ainda uma área de escalada, parques infantil e juvenil e um percurso de manutenção, sobre a área da estação arqueológica.

"O terreno terá uma utilização pública que não colide com o que está soterrado", explica o arqueólogo José Cardim Ribeiro. Isto porque todas as infra-estruturas e equipamentos estão fora da zona com vestígios do passado. Para o local deverá ainda ser estudada a forma de explicar aos utentes o que se esconde debaixo da terra. Afinal, mesmo que, conforme admite Catarina Coelho, só em futuras escavações se deslinde se existiu na zona uma "villa" ou "vicus" (povoação), os actuais residentes de São Marcos ficarão a saber que as torres que habitam se situam à beira de um espaço cuja ocupação pode remontar há duas dezenas de séculos.